24 de março de 2011

A gente escolhe o que quer


'-Queria ver se fosse você ganhando 10 mil reais em uma noite! Quando o dinheiro aparece qualquer constrangimento some. Burros são aqueles que se matam estudando, humilhando. Eu ganho mais que muito médico famoso por aí. Tenho o que quero, quando eu quero, do jeito que quero. Que mal há nisso?'

“Aquelas palavras não me saiam da cabeça. Eu nunca pensei em tomar uma atitude drástica dessa, logo eu que sempre fui daquelas menininhas nojentas cheias de preconceito com tudo. Mas eu não via outro meio. Queria mostrar que eu poderia ser melhor que qualquer um. Ninguém mais me humilharia e diria que eu tinha medo da vida. Eu ia mostrar do que eu era capaz. Daria uma vida melhor a minha mãe, e estaria presente com ela sempre, ela nem ia sentir a falta do meu pai e nem se lembraria das dores que ele a tinha causado ao fugir quando soube da gravidez. Panaca!
Teria tudo que eu sempre quis. Me daria bem na vida. Poderia até ser rica e quando isso acontecesse eu largaria essa vida e tomaria um rumo diferente. É isso. Vou tentar, arriscar."

Quando se tem 17 anos a gente é cheio de sonho, de vontade, e pior que isso, achamos que podemos controlar tudo. A garota que tinha me falado sobre aquela vida diferente era a mais popular do colégio, tinha os tênis e celulares da moda, era a mais desejada pelos garotos, e todas as meninas queriam ser sua amiga. Eu era só mais uma das esquisitas com óculos enormes que ficam no canto e ninguém nunca notou, nunca viu. Eu era pobre, e o único cara por quem me apaixonei tinha ficado com a garota popular e eu estava cansada disso tudo. Queria que me notassem, que me vissem, que me desejassem. Queria ser popular, legal, só isso.
Meu primeiro programa foi o mais difícil, eu era virgem e nunca nem tinha beijado alguém antes. Na verdade nem sei como conseguir entrar para isso, nunca fui das mais bonitas, e naquele tempo eu era desengonçada, atrapalhada. Sabe que acho que foi isso que chamava atenção? Depois do primeiro, do dinheiro que vem depois de uma hora, você se empolga e não quer mais parar. Tudo é mais fácil, você é quase idolatrada e pode ter tudo o que quer. Depois de um tempo as horas começaram a ficar mais caras, você está nas melhores festas da cidade, conhece o prazer das drogas, do sexo sem regras.
Hoje seria só mais um daqueles programas rotineiros com um cara muito rico que não era feliz na família. Mas aí o cara rico não era um cara qualquer, era o meu pai. Ele não tinha me reconhecido, ele me abandonara quando eu nem tinha nascido, como iria saber quem eu era e como estaria? Mas eu o reconheci pelo sinal no pescoço, lembro das fotos que minha mãe escondia de mim e eu ia ver à noite. Seu olhar também me fez o reconhecer, minha mãe dizia que do meu pai eu tinha herdado aquele mesmo olhar de desinteressado. Quando ele disse o nome, sem querer, eu já tinha certeza. O cara que causou dor e sofrimento a minha mãe e a mim estava ali, deitado ao meu lado. Tinha pagado caro por uma hora de prazer e parecia querer ainda mais.
Na saída do Motel, ele veio me falando algumas baboseiras que não dei atenção, só a raiva me consumia. Pedi para que ele parasse no meio da pista e me deixasse lá.
A noite era como todas as outras: frio, carros passando. Mas não era igual.
Por um minuto, depois de quase 7 anos, eu parei e pensei em mim, nos planos dos 17. O que eu tinha feito?
O tempo todo só queria provar que eu era melhor que ele, mas no fim, acabei sendo igualzinha ao meu pai. Não trouxe felicidade nem conforto à minha mãe, só trouxe vergonha e mais dor.
Sentei na calçada fria, e meu cigarro era a única coisa que me aquecia naquele momento.
Queria voltar aos meus 17, e ser a desengonçada da turma. Queria ter escolhido a dificuldade os estudos. Queria ter sido melhor.
A verdade na vida é que nós escolhemos o nosso caminho, não adianta colocar desculpa nas coisas ou pessoas que não podem se defender. Se virei prostituta, foi minha escolha, não adiantava lamentar. Não foi meu pai, ou a impopularidade, a pobreza... eu que quis ser notada.
Continuei naquela rua sentada por mais algum tempo. Logo um carro pararia, buzinaria e eu estaria lá de novo, na vida que escolhi, satisfazendo alguém e fingindo que não me importava.
“Eu sou de ferro”


Texto para Bloinques :)

Oi galera, tudo direitinho com vocês?
Então, eu tô vindo aqui para dizer que estou pensando em colocar certas divisões no blog. E esse post, além de ser para participar do Bloinques, é o primeiro de uma nova parte daqui do #Mpb. O nome disso será "Escutando a imagem" onde eu escreverei posts inspirados na imagem ( e é, eu já vinha fazendo isso há algum tempo), só que além de eu mesma escolher as imagens, gostaria que vocês também me mandassem sugestões de imagens para meu email (jessica_cstc@yahoo.com.br). Que acham?
Obrigada pelos comentários de sempre.
Um abraço :)

11 comentários:

may disse...

Ual, adorei! Lembrei um pouco do filme da Bruna Surfistinha. O bom do filme e da sua história, é que a gente pode enxergar um outro lado da história! :**

Rodolpho Padovani disse...

Esse eu tive o privilégio de ler de antemão e você já sabe da minha opinião sobre ele. Um conto impactante que foi escrito de uma maneira muito envolvente. Boa sorte no projeto =)

beijos.

Marcelo R. Rezende disse...

Achei profundo, lindo, me revirou o estômago, mas de tão bem feito. Fazia tempo que não te lia e fazê-lo com um texto tão foda, é de emocionar.
Um beijo em você.

@juusep disse...

IMPACTANTE mesmo.. Nossa.. Sem palavras!

Babizinha disse...

De início pensei que você até ia criticar alguma coisa a respeito de “Bruna Surfistinha”, mas surpreendeu mes-mo!

Prostituição, incesto, drogas e escolhas – senti engulhos, porém fez uma boa reflexão ao final, impactante!

Beijos

Fernand's disse...

a realidade sem medo da verdade.
esse peso não para qualquer um.



ótima ideia.
faço isso... imagens são inspiradoras!


bjsmeus

Jota disse...

Eu não sou de falar esse tipo de palavras, mas "CHOQUEI!". O enredo perfeito, mas eu me pergunto como essa garota teve coragem de fazer sexo com o próprio pai? Deus meu!!!

Enfim, muito criativo, gostei muito!

rafaela ivo, disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
rafaela ivo, disse...

Caraca, eu adorei isso. Pareceu meio com o filme da Bruna Surfistinha, só que com um dilema mais forte, ela dar uma boa vida à mãe... Pena que não foi isso, que não aconteceu isso. Mas teu texto é excelente, e eu gostei demais da temática do blog. Vou seguindo aqui, beijão!

Any disse...

adorei, parabéns pelo 1º lugar.

Lee Way disse...

Seu blog é lindo, e adorei seus textos! Estou seguindo, aceita parceria? Aguardo. Boa semana =*